quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Arcade Fire

:: ouvindo Archive - Beautiful World ::


Boa Tarde,

Em alguns momentos, digamos, lazarentos da vida, você precisa parar pra pensar. Você pode buscar músicas mais depressivas, para tentar compreender melhor o que sente e, assim, tentar entender o que se passa para então buscar uma solução, blá blá blá. Preciso Me Encontrar, do Cartola, sugere uma abordagem diferente: ao invés de choramingar pelos cantos, é preciso tragar um pouco de vida goela abaixo, seja como for, e vestir um sorriso mentiroso até que ele seja verdadeiro. Mas é preciso viver!

E o que tem o Arcade Fire a ver com isso? O Arcade Fire volta energético. Não que isso seja sinal de mudança, mas quando acaba The Suburbs e a bateria de Ready To Start entra, você percebe que o esporte deles foi para outro nível. A vida pulsa junto com a bateria. Esta vontade de 'ir à vida' - como diria o Divino, é uma interpretação óbvia desta música, deste álbum e talvez da proposta da banda como um todo.


Ready To Start

Mas isso são interpretações minhas. Você - doido que deve ser -, meu caro leitor, lê este blog de vez em quando e certamente não as ignora, por isto não as omito. Mas existem pontos inquestionáveis quanto ao Arcade Fire, que definem esta banda como uma das grandes da atualidade. A originalidade do som, volumoso e rico tamanha a diversidade de instrumentos utilizados é um deles; originalidade que não se limita ao som, é só olhar os dois rapazes da percussão vestindo capacetes, um batendo com as baquetas na cabeça do outro do outro e Neighborhood #2 (Laika). Não encontrei este vídeo em específico. Se você, meu caro leitor e detetive por acaso encontrar a versão que eu mencionei, por favor, passe-ma! Mas esta versão do festival de Reading de 2007 deve ser suficiente:



O vigor das apresentações ao vivo é um dos principais, certamente. Alguns meses atrás fui obrigado a abandonar o show de horrores do primeiro debate dos presidenciáveis do nosso Brasil para assistir ao show transmitido ao vivo para o mundo todo através do YouTube. Palavras de Butler, quando houve um erro de um dos membros da banda: "we're gonna start over, and someday you will say to each other 'remember that day when they fucked up the song, then they started over again and it was the best night of our lives' ". Ou algo assim. Esta habilidade para transformar a cagada em diamante, de improvisar até mesmo com o adverso é grandiosa, mas eu creio que a banda é realmente foda ao vivo por um motivo simples: eles fazem o tipo de música boa para se ouvir em meio a uma multidão tomando uma cerveja. É o tipo de som que causa uma comoção coletiva, consequência natural da proposta da banda. Se você assistiu ao vídeo acima, eu não preciso nem dizer que o componente 'vida' exerce um papel longe de ser secundário.

Por incrível que ainda possa parecer, apesar de tantos pontos positivos, tantos destaques individuais, duas estrelas conseguem brilhar mais forte dentro da constelação arcadefiriana: o casal formado pelo próprio Win Butler e Régine Chassagne. Aquele com seus vocais trêmulos de tanta verdade, de tanto entendimento do que se representa através da música, empunhando uma guitarra improvável, apesar de simples em boa parte das músicas; e sempre pulsante, até mesmo 'pesada' em meio ao corajoso, porém alegre e pacífico som da banda. Esta com sua voz doce, extremamente precisa e 'bizarra' nos vocais de apoio, apesar do aparente paradoxo. Isto quando ela não resolve meter o coração nos foles do acordeon, que, dentro do seu timbre, consegue desenhar linhas melódicas semelhantes às dela. Prova da destreza, da naturalidade com que ela canta ou toca, prova de que os sentimentos fluem com mesma eloquência em mãos e cordas vocais tão hábeis.

A verdade é que, apesar da energia da banda ter se evidenciado ainda mais para mim neste disco, não se pode dizer que eles se reinventaram, que houve uma grande mudança na sonoridade do Arcade Fire. Cuidado, meus caros. Não estou dizendo que eles são o novo AC/DC e que para sempre farão discos bons e iguais (guardados os devidos exageros desde que vos fala de maneira apaixonada). Mas também não aconteceu a eles o mesmo que sucedeu aos Macacos Árticos, que passaram uns dias com o rapaz certo no estúdio localizado no lugar certo e transformaram a banda. Houve uma evolução mais evidentemente horizontal, percebe-se maior maturidade e intimidade com a proposta inicial do Funeral. Isto mostra que a banda está pouco se fodendo para a óbvia repercussão 'repetitivo, massante, fora de moda, pouco criativo' da crítica especializada. Month Of May, Wasted Hours e a metade final do disco como um todo exemplificam muito bem esta evolução e poupam-nos das descrições.


Month Of May


Uma hora ou outra, no entanto, eles vão precisar se reinventar. Pessoalmente, só não tenho tanta confiança quanto curiosidade para saber o que está por vir. Bem que podia ser no próximo disco.

Desejo a vocês um ótimo mês, sem prometer que volto logo. Mas eu volto.

Cheers!
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