segunda-feira, 4 de julho de 2011

The joke is on you



..:: ouvindo Arcade Fire - Keep The Car Running ::..



Senso de humor é algo subestimado na música, possivelmente por passar despercebido por críticos e ouvidos anônimos. Assim, Who's Next e Quadrophenia são mais conhecidos que o Sell Out, independente da preferência pessoal por este ou aqueles. O mundo da música é como uma mesa de bar: nem todos pegam as boas piadas.

Os Apples in stereo já são uma banda mais escrachada. O Travellers of Space and Time (último deles, sobre o qual você pode ler aqui) é, nas palavras de Robert Schneider, um disco no qual pessoas e robôs cantam juntos. A temática futurista do disco, além de justificar a viagem, permite uma digestão diferente das próprias influências da banda: o que eles têm de Beach Boys se traduz em backing vocals primorosos dos tais robôs, com direito até a uma faixa na qual ouvimos uma capela de latas, um coral de inteligência artificial, Strange Solar System. Uma aula sobre como finalizar um disco pode ser ouvida abaixo.

Time Pilot

O humor da letra de She Don't Use Jelly fala sobre o humor do Flaming Lips por si tanto através de uma temática, digamos, aleatória, quanto nesta maneira de escrever deliberadamente infantil, cheia de detalhes intuitivos e naturalmente engraçados. E os caras também são muito loucos: traduzem o sarro em uma bagunça de guitarras e sintetizadores, uma estética bizarra explorada em diferentes abordagens ao longo dos álbuns.

She Don't Use Jelly

"I know a guy who goes to shows
When he's at home and he blows his nose
He don't use tissues or a sleeve
He don't use napkins or any of these
He uses magazines
Magazines
Magazines
Magazines
Magazines"



Senso de humor pode ser interpretado de uma maneira mais literal para que a questão possa se aprofundar. Sensibilidade para traduzir algum estado de espírito (temporário ou permanente) em algo criativo é uma das características mais importantes de uma banda. Por isso, Talking Heads.
Porque eu não sei quanto a vocês, meus caros leitores, mas se um dia eu cruzasse a tangível linha da loucura, eu gostaria muito de saber falar francês. Para esta finalidade, não creio que nenhum outro idioma possua o mesmo efeito para se recitar o que seja, se acompanhado de um olhar distante e confuso e de pronúncia efusiva.


A letra de Psycho Killer é toda com o maníaco em primeira pessoa, exceto pelo refrão. Infelizmente, caímos aqui na caetânica regra do ou não, pois a (sempre performática) atuação de David Byrne nos vocais mantém uma linearidade em seus desvios, e não é absurdo interpretar o fafáfafá em favor disso. A banda parece ter um vigor criativo, aproveitando cada fragmento da música para expressar a loucura, seja com um parágrafo dentro da cabeça do cidadão ou com o fim instrumental caótico e indescritível.

Psycho Killer


Também de seu primeiro disco, 77, Pulled Up é o exemplo mais exagerado da banda, em sua característica fractal de fluência, na predominância do contra-baixo de Tina Weymouth para construir as melodias e na tonalidade cênica com que Byrne adorna seu jeito de cantar e reforça o humor. Uma guitarra nos versos parece fazer cócegas no cérebro do ouvinte, em notas agudas e ágeis. O baixo do refrão coloca quem ouve a música no estado de espírito do eu-lírico, puxado das profundezas da alma humana por outra pessoa. Escute a cantoria no fim disso:

Pulled Up


O meu medo é que a música passe pela mesma crise de moralidade pela qual passa nossa sociedade, na qual tudo é politicamente incorreto. Arte não é lugar para isso.
Cheers

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