..:: ouvindo Arcade Fire - Keep The Car Running ::..

Senso de humor é algo subestimado na música, possivelmente por passar despercebido por críticos e ouvidos anônimos. Assim, Who's Next e Quadrophenia são mais conhecidos que o Sell Out, independente da preferência pessoal por este ou aqueles. O mundo da música é como uma mesa de bar: nem todos pegam as boas piadas.
Os Apples in stereo já são uma banda mais escrachada. O Travellers of Space and Time (último deles, sobre o qual você pode ler aqui) é, nas palavras de Robert Schneider, um disco no qual pessoas e robôs cantam juntos. A temática futurista do disco, além de justificar a viagem, permite uma digestão diferente das próprias influências da banda: o que eles têm de Beach Boys se traduz em backing vocals primorosos dos tais robôs, com direito até a uma faixa na qual ouvimos uma capela de latas, um coral de inteligência artificial, Strange Solar System. Uma aula sobre como finalizar um disco pode ser ouvida abaixo.
Time Pilot
O humor da letra de She Don't Use Jelly fala sobre o humor do Flaming Lips por si tanto através de uma temática, digamos, aleatória, quanto nesta maneira de escrever deliberadamente infantil, cheia de detalhes intuitivos e naturalmente engraçados. E os caras também são muito loucos: traduzem o sarro em uma bagunça de guitarras e sintetizadores, uma estética bizarra explorada em diferentes abordagens ao longo dos álbuns.
"I know a guy who goes to shows
When he's at home and he blows his nose
He don't use tissues or a sleeve
He don't use napkins or any of these
He uses magazines
Magazines
Magazines
Magazines
Magazines"
She Don't Use Jelly
When he's at home and he blows his nose
He don't use tissues or a sleeve
He don't use napkins or any of these
He uses magazines
Magazines
Magazines
Magazines
Magazines"
Senso de humor pode ser interpretado de uma maneira mais literal para que a questão possa se aprofundar. Sensibilidade para traduzir algum estado de espírito (temporário ou permanente) em algo criativo é uma das características mais importantes de uma banda. Por isso, Talking Heads.
Porque eu não sei quanto a vocês, meus caros leitores, mas se um dia eu cruzasse a tangível linha da loucura, eu gostaria muito de saber falar francês. Para esta finalidade, não creio que nenhum outro idioma possua o mesmo efeito para se recitar o que seja, se acompanhado de um olhar distante e confuso e de pronúncia efusiva.
A letra de Psycho Killer é toda com o maníaco em primeira pessoa, exceto pelo refrão. Infelizmente, caímos aqui na caetânica regra do ou não, pois a (sempre performática) atuação de David Byrne nos vocais mantém uma linearidade em seus desvios, e não é absurdo interpretar o fafáfafá em favor disso. A banda parece ter um vigor criativo, aproveitando cada fragmento da música para expressar a loucura, seja com um parágrafo dentro da cabeça do cidadão ou com o fim instrumental caótico e indescritível.
Psycho Killer
Psycho Killer
Também de seu primeiro disco, 77, Pulled Up é o exemplo mais exagerado da banda, em sua característica fractal de fluência, na predominância do contra-baixo de Tina Weymouth para construir as melodias e na tonalidade cênica com que Byrne adorna seu jeito de cantar e reforça o humor. Uma guitarra nos versos parece fazer cócegas no cérebro do ouvinte, em notas agudas e ágeis. O baixo do refrão coloca quem ouve a música no estado de espírito do eu-lírico, puxado das profundezas da alma humana por outra pessoa. Escute a cantoria no fim disso:
O meu medo é que a música passe pela mesma crise de moralidade pela qual passa nossa sociedade, na qual tudo é politicamente incorreto. Arte não é lugar para isso.
Cheers
Pulled Up
O meu medo é que a música passe pela mesma crise de moralidade pela qual passa nossa sociedade, na qual tudo é politicamente incorreto. Arte não é lugar para isso.
Cheers

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