terça-feira, 11 de março de 2014

Estrangeiro também ao Rio de Janeiro

Um cargueiro chegava à baía de Guanabara após quase um mês de viagem difícil desde os frios portos Noruegueses. Trazia objetos metálicos pesados, destinados a usinas hidrelétricas, construções de estádios e siderurgias. Podíamos ler em letras azuis sobre superfície branca, MAUD.

Estávamos tomando cerveja no deque de um bar do morro do Pinto, de onde a vista da região portuária permitia fervorosos e errôneos sofismas acerca daquela embarcação; não obstante, os devaneios eram interrompidos por sucessivos monólogos de Pascoal, churrasqueiro e dono do bar, sobre os favores que sua vida antiga no Rio de Janeiro permitia.

A perimetral seria demolida naquela tarde, concretizando a série de atos políticos inexplicáveis (ao menos pela razão dura e moral) do prefeito. Eu e Lorena nos servíamos de carne salgada, mal passada e também de Serra Malte trincando, de modo a celebrar o momento triste.

- Falta muito? - Perguntei, estrangeiro ao estado do RJ, sortudo namorado desta pretinha linda, que fora porta-bandeira na infância pela Estação Primeira de Mangueira.
- Já passaram quarenta minutos do anunciado n'O Globo. - Respondeu Lorena, sem dar importância ao que dizia.

Pascoal nos interrompeu, menos para servir mais picanha do que para comentar a construção da Ponte pela ditadura em sua infância, quando havia menos pessoas e poluição naquele lugar, tempos do trampolim de Icaraí, do carnaval de rua com brigas que definiam para sempre assuntos pendentes, e mais alguma brincadeira ostensiva sobre a quantidade enorme de paulistas e paraíbas que chegavam pelas universidades federais e destruíam sua linda cidade.

Um pouco depois que Pascoal derrubou sua tábua de carnes no chão, relembrando com o corpo alguma história que eu já não mais ouvia, sirenes de alerta soaram. Todas as mesas do deque se voltaram à paisagem prestes a se modificar para sempre. O barco norueguês parecia isolado.

Uma série de estrondos graves foi seguida de cascalhamentos, primeiro volumosos, depois residuais e agudos. Somente depois de algumas horas foi possível enxergar o esqueleto não tombado, as pedras de concreto pendendo por estruturas de ferro. Algumas donas de casa de redondezas nem tão próximas diziam ter perdido parte de seus cristais com o impacto.

Tamanho o estrondo e tão perene a incompetência das ações públicas, um bolete de concreto foi projetilizado com muita violência, suficiente para atingir o Maud e afundar com ele o nome da rainha de outros tempos. Pudemos todos ver isso com espanto do bar de Pascoal, o rápido naufrágio e o redemoinho de água resultante, que pareceu desproporcional.

Terminamos nossa cerveja e fomos beber em um lugar onde isso pudesse ser feito em paz, já de barriga cheia. Mais ou menos uma hora depois, fomos embora. Especulamos que a movimentação quase pós-apocalíptica pela qual passávamos era resultante da sujeira, do trânsito e dos protestos da perimetral, talvez alguns tantos curiosos pelo naufrágio do Maud. Lorena seguiria para seu ônibus e seu trabalho, enquanto eu, à estação das barcas, a trabalho, depois a descanso.

- Vou deixar minha câmera com você, a situação tá bizarra demais...

Como eu vinha aprendendo, e esta seria a última lição, cada ato mais absurdo seria utilizado para manter as aparências nesta cidade; mesmo que seja para administrar a enganação por mais cinco minutos.

A verdade é que depois daquele redemoinho que cresceu e ficou gigante, a baía de Guanabara secou. E eu me encontrava preso na estação das barcas com um comprovante de embarque a ser reembolsado. Não havia sinal das embarcações e os seguranças não deixavam ninguém sair.

Um cara com dreads e uma camiseta de ativismo indígena pulou uma catraca e saiu correndo, o que dispersou uns três seguranças e incentivou mais dois malucos a pularem as catracas menos resguardadas. Quando uma garota com tatuagem de crânio bovino no ombro e cabelos laranjas pulou, os seguranças sentiram estar perdendo o controle. Vinha um deslocamento policial. As pessoas se agitaram mais e começaram a fugir. Pancadaria, trombadas, bombas, pedradas. Na primeira oportunidade em que vi segurança, saí correndo em direção ao caos.

Com alguma dificuldade consegui romper o contra-fluxo; enquanto todos buscavam amigos, parentes ou mesmo entender o que estava havendo, eu buscava perspectiva. Alguns homens tomavam água gelada numa daquelas garrafas térmicas de 5 litros com bocal de cafeteira, próximos de uma escada que se montava sob o esqueleto da perimetral. Olhavam curiosos, mas tinham horas a cumprir, já que as obras se davam no período da noite. Enquanto seus ânimos se divertiam entre palavrões sobre o futebol do dia anterior, subi a escada e, de cima, pude observar algo medonho: algumas plataformas de petróleo e navios gigantescos restavam, fluiam lentamente por uma espécie de ralo do oceano. Por lá, a sujeira da Guanabara fluiu em direção a uma fenda tectônica, o que fez exalar um cheiro muito forte; ao mesmo tempo, um calor que derreteu e selou todos os canos que mandavam suas porcarias para o mar, agora um grande deserto de areia limpa.

No dia seguinte, moleques foram vistos com pranchas de sandboard, alguns mais novos com espadas de madeira combatendo monstros invisíveis.

Após registrar o cenário desértico com a câmera, segui em direção ao centro, que mais parecia um carnaval que um dia comum: muitos estavam nas ruas pelo mesmo motivo. Contudo, o clima de alegria violenta se substituía por algo sentido durante as manifestações públicas em que a repressão seria iminente. O medo, que já fazia pessoas pularem ao serem questionadas sobre o horário ou direções a algum lugar, agora não mais podia ser dissimulado pela simpatia carioca.

Quando cheguei à casa de Lorena, quase não nos encontramos, ela terminava de arrumar sua mochila para me procurar.

- E onde está sua capa vermelha?

Apanhei um pouco, ganhei alguns beijos, aproveitei como um menino aquela profusão sincera de sentimentos, que interrompi quando percebi que ficava novamente ambígua e propensa à violência. Mostrei as fotos.

Ao mesmo tempo que não podia aceitar a realidade, pude convencê-la de não ir à Praça XV. Mesmo em seu trajeto de ônibus, deve ter havido janelas, lapsos de vista para a baía desértica, provavelmente despercebida por todos, já que naquela linha quase não há turistas. Lorena reconheceu que seus pensamentos transitaram entre o choque psicológico da demolição de uma paisagem que a acompanhara em toda sua existência, alguma coisa sobre o nervo ciático de sua mãe, opções para a janta... Como me restava o dinheiro do táxi do trabalho irrealizável, dado o trânsito colossal da Ponte, pedimos uma pizza.

O motoqueiro chegou junto com a chuva, ambos para melhorar o dia. O cheiro e o calor intenso do fenômeno metafísico e meteorológico foram amenizados pela densa água, como nossos ânimos à mesa. Sofismamos usos daquelas imagens em projetos publicitários de veículos 4x4, filmes sobre desertos e o fim do mundo, documentários televisivos sobre os ecossistemas do porvir. O vinho terminou por nos nocautear.

Acordamos muito cedo, relatando sonhos que depois esqueceríamos, em estado de semi-vigília. Pela janela, a situação continuava estranha, em nível visivelmente mais controlado. Decidimos sacar as câmeras e sair do apartamento.

O sol ameno e luminoso que acompanhava a chuva gerava um efeito de refrações entre as gotículas e as reverberações de luz nas janelas espelhadas dos prédios, mais as folhas que caíam com a forte água da pós-estiagem. Às vezes algum raio de luz arrebataria meu olhar e eu não saberia dizer onde o sol estava. Lorena, que é peixes, transbordava sua beleza quase infantil no descaso com eventuais perigos de uma caminhada, segurar sua mão era um privilégio tanto quanto uma necessidade vital.

De um sopro do céu, a chuva apertou drasticamente, sem diminuir a intensidade da luz matinal. Impressionado por este momento, descuidei de Lorena, que se colocou à frente de um ônibus, cujo motorista freou, esbravejou e foi embora. Estava tudo bem, porém fiquei nervoso com a situação, um pouco com a inconsequência de Lorena. Talvez por isso os pontos de luz que se colocavam em plano perpendicular à minha visão, a um palmo de meu rosto não me chamaram a atenção, pensei que estava apenas desorientado. Um desses pontos se alinhou a meu olho esquerdo, o que me cegou por uns segundos. Ao investigar o céu, percebi que à equação luminosa anterior somavam-se golfinhos e seus reflexos oleosos, nadavam através das gotas suspensas fazendo o barulho que um facão afiado faz na grama; faziam suas palhaçadas usuais, mas duvido que em algum parque de Miami tivessem causado tamanho deslumbre da platéia.

Alguns, mais filhotes, se perderam e caíram em pontos aleatórios da cidade. Um destes, o ônibus do motorista mal-humorado. A baía se enchia.

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