sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Jónsi e Marley

Ano passado eu assisti a Go Quiet, do vocalista da banda Islandesa Sigur Rós, Jónsi. É uma belíssima releitura das músicas de seu próprio disco solo, Go, em versões minimalistas filmadas em sua casa, ou pelo menos em ambientes que sinalizam conforto semelhante para o artista. Grande músico, Jónsi dedilha violões, pianos e até um órgão que exige de seus pés o constante controle de ar dos foles, todos com naturalidade semelhante à com que sua voz se mistura aos instrumentos e se infiltra na consciência de quem o ouve. Seu timbre e sua entonação sinalizam algo maternal que confere a suas pontuações acerca do comportamento humano uma tonalidade de compreensão mais que de julgamento, o que faz dele a escolha de pessoas mundo afora após um dia cheio para aplainar as idéias.

A peculiaridade de suas escolhas de caminhos melódicos sempre me chamou a atenção. O processo para entendê-lo foi para mim semelhante ao processo para entender Bob Marley, talvez só por terem sido exóticos inicialmente. Dei crédito à teoria intuitiva. Costumo fazer isso por acreditar que não compreendemos até que ponto não estamos analisando as coisas mais profundamente que sabemos, e não sei se terei este caso para me refutar ou não.

A convergência das mentes destes artistas parece estar na detecção de problemas semelhantes da humanidade. O rumo que cada um toma faz as retas se inclinarem e se tocarem, por um lado, compreensiva e branda, por outro, protestante e violenta quando/se necessário. Pensei em polarizar as abordagens como feminina e masculina até perceber o quanto isso teria sido arbitrário. Ainda assim, pensar em suas características como reflexos opostos ajuda a entender melhor essa intersecção.



A música tem seu componente ying-yang, ainda outra vez, se fizermos um esforço para ver isso. Ára bátur, do Sigur Rós, uma música chamada Barco a Remo... Um conceito simples consegue estruturar uma produção que reflete uma cultura que cultua seus espaços vazios, a contemplação e o pacato - mesmo quando serve de analogia para o distanciamento entre pessoas. Como Jamming, uma metáfora simples que compara as jam sessions (quando os caras improvisam um som) à vida e como temos de fazer escolhas diárias e imediatas como a escolha das notas intuitivas, sem muito tempo para pensar, sendo a espontaneidade imposta responsável por produzir algo verdadeiro. As próprias definições, ou conjunto de características notáveis nos trabalhos das bandas parecem se polarizar assim, a música do Sigur Rós límpida e grandiosa pra cá, o reggae improvisado e fraturado pra lá.



É claro que eu podia manipular a realidade mais um pouco e tentar mostrá-la como a vejo para vocês de um jeito mais detalhado. Contudo, não quero impor - nem no blog - uma visão em que não acredito piamente. Fico feliz pela idéia intuitiva ter sido suficiente para que chegasse com o texto até aqui. No vídeo abaixo, um trecho de Go Quiet, Tornado, pode ser mais elucidativa que Ára bátur por ser cantada em inglês, mas o hopelandic - a tal da mistura de islandês, ou icelandic + esperança, ou hope, que consiste na mistura do idioma islandês com técnicas de improvisação que músicos usam para ir 'falando qualquer coisa' enquanto ainda não têm uma letra para uma música mas querem criar uma linha vocal - pode ser surpreendentemente expressivo. De qualquer maneira, cantar em inglês define com mais precisão a temática para a maioria dos ouvidos não fluentes em islandês. Em Tornado, a carga de compreensão mais do que de julgamento do discurso de Jónsi de que falei antes fica clara.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Sobre Cigarros e Cercas [5]

this is not going to come out today, man. fuck this shit, i don't think i have anything else to say. i wish that everybody minded their own and only business, and that organic marijuana could be a Jamaican commmoditie. Life's not like that because the world is full of idiots. Idiots who would rather trust immediate and thoughtless reactions other than using their mind and common sense to evaluate the issues and virtues of everyday shit. people who would rather live with (sometimes not that much) pre-thought  rules, values, whatever, and somehow this Insanity makes me smoke this shit other than some stinky fat and beautiful White Widow. Man, that really pisses me off...

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Como farei para viver? Um mundo completamente novo, uma nova piscina de possibilidades se enche diante de mim, o futuro parece...

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"Fio, vai buscar uma guaraná geladinha pra mãe no beer?"

"Sem problema!"
[a voz do garoto é levemente fanha, sua entonação, um misto de coitado e estúpido]

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"Dois idiotas em uma uma bicicleta..."

Jow e seu irmão riem antes da história conseguir se iniciar, como também fizeram num universo anteriormente abordado, por alguns bons minutos.

"Cara, essa maconha é muito boa! Ela dá uma brisa muito consciente, como se o mundo girasse a meu redor e os detalhes fossem todos claros e se cristalizassem com facilidade na minha frente. Não o mundo, planeta. Algo como esse lugar, ou o que estiver na cabeça."

"Pode crer, cara. Acho que você perde um pouco o poder de direcionar qual será a próxima coisa na sua cabeça, mas mantém uma atenção maior que a comum sobre o que quer que pipoque no olho da mente. Sempre tive essa impressão... Mas, cara, você não falou dos idiotas!"

"Ah, os idiotas..."

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"Fabinho!"

Maicon chamou por seu amigo ainda algumas vezes e estranhou a demora, estranheza confirmada pela cara de choro do amigo.

"Que foi, mano?"

"Ah, roubaram minha bike. Ontem dei um rolê com uns amigos, guardei em casa, agora há pouco fui procurar e... já era, mano, levaram mesmo, já revirei essa casa!

"Ah... quer ir na garupa, então? Tava indo buscar um refri pra minha mãe no beer."

"... Demoro, vamo lá"

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"A Barra Forte vermelha da mãe de Maicon reluzia com o sol das 7, do horário de verão. Com expressão corajosa, o menino Fabinho seca as lagrimas e monta na garupa."

Após dizer isso, Jow olha brevemente para o horizonte e faz que não com a cabeça.

"O quê?"

"Nada, esquece... Então, cara, peguei a Camila e o Caio na casa deles e fui em direção ao bar pela avenida. No fim daquela descidona tem uma lombada gigantesca, né? Pois uns cinco segundos antes de passar pela lombada, vi o casal de cientistas anarquistas juvenis passando entre meu carro e a guia, um na garupa, pés na pedaleira e de costas para o outro, no piloto com um refrigerante pendurado por uma sacola no lado direito do guidão.

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Enquanto, desta vez, o pneu da frente da bicicleta bate em cheio na casca de tartaruga do chão, a fina sacola plástica se rompe. Isso não evitou a ejeção do passageiro de outrora, mas poupou Maicon e seus dentes separados e levemente inclinados para a frente, expostos agora àquele mesmo sol das sete e pouco no horário de verão, enquanto sua risada aguda ecoava pelas paredes a desgraça superficial e ardida do amigo, sem total consciência da não gravidade do assunto, mas incapaz de conter o riso causado pela memória de segundos atrás. Um misto de alívio e senso de humor mórbido, natural até mesmo (ou principalmente?) ao garotinho de cara inocente.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Late Night Music - Louis Armstrong plays W. C. Handy

Sabe aquela coisa que você não faz por querer.. minha intenção era dormir, mas antes disso, zapeando pelas minhas músicas no agora menos utilizado notebook - em detrimento de um novo PC, porém ainda meu favorito para escrever -, vi um disco que tinha ouvido já há tanto tempo que nem me lembrava mais o que tinha achado, esse Louis Armstrong plays W. C. Handy. Foi um grato presente do acaso, apesar de novamente atrasar meus planos em escrever sobre bandas que tocarão no Brasil no fim do ano nos festivais vindouros. Um grato presente, também apesar de novamente atrasar o meu sono, já fodido em grande parte pela mudança de horário. Mas é melhor que achar dinheiro no bolso, essa história de achar música boa perdida no computador.


No Semióticas  você pode ler uma resenha sobre 'Pops',
biografia do cantor e trompetista, em um texto muito interessante.

Não somente por achar um bom disco do Louis Armstrong, algo relativamente fácil. Os extras tão fartos da versão (vinil duplo) disponibilizada na foto contém sequências memoráveis e somam-se ao grande repertório, exclusivo de Handy. A entrevista é outro presente: o audivelmente idoso e sábio compositor fala ao produtor do disco, George Avakian, sobre suas impressões e as da imprensa da época acerca de Louis, seu talento e sua personalidade. Pops e seu jeito de cantar sorrindo não contagiam apenas a nós. Risadas espontâneas no clima mais relaxado do ensaio são ouvidas, a interação entre os músicos é mais notável, como numa apresentação ao vivo. Em geral, sentem-se à vontade para experimentar e improvisar nos ensaios de maneira mais solta, até para um desfecho melódico menos agradável às vezes, mas nunca menos para o real ou humano. Deixo em streaming a versão de ensaio de Loveless Love, na qual Satchmo e Velma Middleton cantam um pouco mais baixo, um dialogo bem humorado e afinado, sem deixar de mencionar os All Stars, time virtuosíssimo do trompetista cujo nome cai tão bem. Assim você terá de baixar o disco pra ouvir a entrevista ou mesmo a piada que Louis conta sob disfarce de uma história de sua infância. Cara carismático...

Como selecionar as maiores pérolas do repertório seria tão penoso quanto tentar escrever sobre todas elas e eu preciso dormir, eu vou dormir. Boa noite! Espero que curta o disco.




Loveless Love (rehearsal sequence)

sábado, 1 de outubro de 2011

Late Night Music - Money Jungle

clique sobre a foto ou aqui para baixar o disco
Boa tarde,

Eduard Kennedy 'Duke' Ellington, pianista de Washington, DC, um dos maiores compositores da história do jazz, uniu-se ao baixista de mesmo calibre do seu, Charles Mingus e ao grandíssimo baterista do beebop, Max Roach, para gravar Money Jungle em Setembro de 62, há quase 40 anos! O número limitado de instrumentos não serve de muro para nada. Pelo contrário, os músicos souberam se utilizar de eventuais pausas alheias para alongar notas, quebrar o ritmo ou apreciar a beleza do silêncio de diversas composições, em sua grande maioria do pianista.

O piano é um instrumento muito completo, não é à toa que grande parte dos compositores dão vazão a seus impulsos criativos nas teclas brancas e pretas. Parece ser o instrumento com disposição mais formal e organizada das notas, o que o faz onipresente nas gravações dos mais diversos gêneros em estúdio. Além disso, a consistência e o volume de seu timbre permitem momentos em um disco como Solitude, uma das obras-primas de Duke Ellington, abordada em dois diferentes takes com maestria e isolamento do compositor no início das duas faixas. Vinícius de Moraes era quem falava, 'pra que eu vou querer um cara no piano se ele não for triste'...

Backward Countryboy Blues, de fato, parece ser tocada ao contrário. Em uma linha de contrabaixo extremamente agressiva, Charles Mingus justifica sua fama de "zangado homem do jazz", interagindo com intervenções de um Duke Ellington do velho oeste, faceta permeada em outras faixas do álbum. A Little Max é a faixa em que o trabalho do baterista fica mais evidente, obviamente. Sua influência na montagem das peças, expressa em adornos de seções ou mesmo viradas entre elas fica toda caricaturizada nas duas versões da composição. O experimentalismo parece ditar o tom da postura dos músicos em todo o Money Jungle.

Baixo e bateria são considerados a seção rítmica do jazz. O trio pode ser polarizado desta maneira - Duke pra cá, eles pra lá - mais que de maneira exclusivamente normativa. A intensidade e o volume com que tocam Roach e Mingus não apenas se contrapõem ao estilo do grande compositor, obrigam-no a sair de sua zona conforto, mais elegante e delicada. Assim, em alguns momentos o ofício do pianista passa a ser lutar por um faixa audível no espectro musical de diversas peças, tarefa oposta à que normalmente se impõe, de abafar a característica 'solo' do instrumento. Obviamente, o sr. Ellington estava à altura do trabalho.

Fleurette Africane (African Flower) tem a beleza de seu título honrada justamente por esta interação bipolar. Ellington e Mingus espiralizam-se numa melodia delicada e fraturada. O contra-baixo parece descontínuo para aqueles que não sabem apreciar os breves segundos de silencio entre seus velozes devaneios. Duke sabe, deixa as notas se prolongarem, dando uma tonalidade azul interessante para a música. Interage com o contrabaixista, sentem-se à vontade em experimentar dentro do teórica e erroneamente suposto limitado horizonte criativo para um trio. Trata-se claramente de um estúdio lotado de egos inflados, ok, mas que se respeitam mutuamente e cujos trabalhos se completam de maneira grandiosa. Escute à noite.

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Post dedicado à minha irmã, Nana.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Russian Red Write About Love

O revival do anos 90, até agora, parece ser o motor criativo das bandas nessa nova década que se inicia: o disco homônimo do Yuck surge como símbolo da retomada, remetendo-nos às microfonias de Pavement e My Bloody Valentine. A evidência do revival não se limita a estes exemplos, basta considerar o sucesso atual do Foo Fighters, a vinda de bandas como Stone Temple Pilots, Alice in Chains e Primal Scream para o Brasil... É aquela coisa cíclica dos 20 anos.


























Fuerteventura é um grande achado de 2011, da belíssima Lourdes Hernandez sob identidade de Russian Red. Passeando pelo folk e pelo indie com muita graça, a cantora explora melodias melancólicas, apaixonadas e saudosas ao som de polígonos de acordes pop. Quase sempre sobre o amor, as músicas deixam transparecer uma influência de Belle & Sebastian, especialmente pela qualidade das letras neste aspecto. A moldura noventista já chama a atenção na segunda faixa, The Sun The Trees, com uma intrudução vocal extremamente apropriada para a temática de saudade e de arrependimento, colocada em subjetivos termos pela senhorita Hernandez:

"The sun fill the kitchen in my house
it's warm and cosy and it helps me breathe
and I wonder if you're making people laugh
cause you're funny, you're funny"

Logo na sequência, talvez o maior single do disco, I Hate You But I Love You. Não é a minha favorita, mas reconheço o apelo radiofônico, por mais ultrapassado que isso possa soar. As maneiras sutilmente diferentes como ela prolonga algumas sílabas expressam a infantilidade do platonismo retratado na música. Vende fácil como uma comédia romântica, sem as chatices típicas do gênero. Talvez seja melhor pensar em Russian Red como uma musa do Woody Allen.

clique sobre a foto ou aqui para baixar o disco
The Memory is Cruel é melancólica, simples e suficientemente. A linha de piano, tão delicada e triste, redunda em um da-ra-rá-ra no refrão, uma poesia escrita sem palavras no ar invisível, ornamentada por pinceladas bastante silenciosas e econômicas da guitarra. Aqui a influência de Belle & Sebastian também é clara, na temática (ah, vá!) e melodicamente, em especial. A voz de Lourdes é muito bonita, parece a Hope Sandoval na maneira como transforma qualquer coração de pedra em manteiga com suas escolhas de entonações para as frases; lembra também a Joanna Newsom na facilidade e espontaneidade com que eleva sua frequência vocal em um curto espaço de tempo.

A Hat é a boa e velha cereja do bolo. A cantora simplesmente ignora o fato de que o violão está oscilando apenas em três ou cinco notas  e se solta em devaneios amplos sobre o silêncio de palavras vazias de pessoa evasiva. Forte candidata a melhor música de 2011 na opinião deste que vos fala, ainda esperando o novo som da nova década e deixando o link para o Fuerteventura ali na foto.
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