quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Nino



O gato siamês no telhado
Sorvia o luar
Quando passou um rabo amarelo
Que ele quis investigar

O gato amarelo perseguia uma rato
Que comia papel de pizza em sua casa
Do outro lado da rua, estático
O gato preto armava tocaia.

Das sombras o gato preto deu seu susto
Quase matou o rato do coração
Assustou também o gato amarelo
Que vinha em sua direção

O gato amarelo deu um grito
O gato preto arrepiou
O rato correu pro monte de telha
E ali esperou.
O gato siamês estava com sono
Mas resolveu ajudar
Os três cercavam o monte
E buscavam o rato com suas patas
A vida do rato estava por um fio
E não fica por aí não
Aquele monte de telhas perto do rio
Era casa do escorpião

O rato quando percebeu
Decidiu certeiro
Voltou para mais perto do breu
Arriscou correr para seu bueiro

Passou por baixo das patas do gato amarelo
Desviou do pulo do gato pantera
Disparou para seu bueiro
O siamês o seguia em dueto

Quando galgou a rua desesperado
Um caminhão virava a esquina
Com a morte dos dois lados
Correu para inesperada calmaria

Os dois amigos lambiam o sangue
Nos olhos do siamês
O rato voltou para seu bueiro
Sob a luz da lua.

sábado, 3 de novembro de 2018

em memória de uma pitangueira cortada

what my parents did for me
they got it back fivefold

they fed me alright
they also cleaned after all sorts of shit
and gave me good and bad instructions
I sure used them all

but they had my joy and friends
and so did the dogs and cousins
who were all together back then
friends, family, cats and dogs
having our share of mammal self-unawareness

thanks to me
there was music there

had they listened to me
the fruit tree would there remain
and still today I know I would climb it
and spend my time there
eating fruit

I would only be more aware of the birds
which would not be for the worse

instead
now there's only a drain there
which takes the water down a discrete slope
across the whole house site
to run down the street to the
subterranean rainwater galleries

all the way to the river
all the way to the sea

to join the currents to Australia
Japan
Vietnam
maybe even Africa

or the North Pole
where it would freeze
and serve as a history book

terça-feira, 11 de março de 2014

Estrangeiro também ao Rio de Janeiro

Um cargueiro chegava à baía de Guanabara após quase um mês de viagem difícil desde os frios portos Noruegueses. Trazia objetos metálicos pesados, destinados a usinas hidrelétricas, construções de estádios e siderurgias. Podíamos ler em letras azuis sobre superfície branca, MAUD.

Estávamos tomando cerveja no deque de um bar do morro do Pinto, de onde a vista da região portuária permitia fervorosos e errôneos sofismas acerca daquela embarcação; não obstante, os devaneios eram interrompidos por sucessivos monólogos de Pascoal, churrasqueiro e dono do bar, sobre os favores que sua vida antiga no Rio de Janeiro permitia.

A perimetral seria demolida naquela tarde, concretizando a série de atos políticos inexplicáveis (ao menos pela razão dura e moral) do prefeito. Eu e Lorena nos servíamos de carne salgada, mal passada e também de Serra Malte trincando, de modo a celebrar o momento triste.

- Falta muito? - Perguntei, estrangeiro ao estado do RJ, sortudo namorado desta pretinha linda, que fora porta-bandeira na infância pela Estação Primeira de Mangueira.
- Já passaram quarenta minutos do anunciado n'O Globo. - Respondeu Lorena, sem dar importância ao que dizia.

Pascoal nos interrompeu, menos para servir mais picanha do que para comentar a construção da Ponte pela ditadura em sua infância, quando havia menos pessoas e poluição naquele lugar, tempos do trampolim de Icaraí, do carnaval de rua com brigas que definiam para sempre assuntos pendentes, e mais alguma brincadeira ostensiva sobre a quantidade enorme de paulistas e paraíbas que chegavam pelas universidades federais e destruíam sua linda cidade.

Um pouco depois que Pascoal derrubou sua tábua de carnes no chão, relembrando com o corpo alguma história que eu já não mais ouvia, sirenes de alerta soaram. Todas as mesas do deque se voltaram à paisagem prestes a se modificar para sempre. O barco norueguês parecia isolado.

Uma série de estrondos graves foi seguida de cascalhamentos, primeiro volumosos, depois residuais e agudos. Somente depois de algumas horas foi possível enxergar o esqueleto não tombado, as pedras de concreto pendendo por estruturas de ferro. Algumas donas de casa de redondezas nem tão próximas diziam ter perdido parte de seus cristais com o impacto.

Tamanho o estrondo e tão perene a incompetência das ações públicas, um bolete de concreto foi projetilizado com muita violência, suficiente para atingir o Maud e afundar com ele o nome da rainha de outros tempos. Pudemos todos ver isso com espanto do bar de Pascoal, o rápido naufrágio e o redemoinho de água resultante, que pareceu desproporcional.

Terminamos nossa cerveja e fomos beber em um lugar onde isso pudesse ser feito em paz, já de barriga cheia. Mais ou menos uma hora depois, fomos embora. Especulamos que a movimentação quase pós-apocalíptica pela qual passávamos era resultante da sujeira, do trânsito e dos protestos da perimetral, talvez alguns tantos curiosos pelo naufrágio do Maud. Lorena seguiria para seu ônibus e seu trabalho, enquanto eu, à estação das barcas, a trabalho, depois a descanso.

- Vou deixar minha câmera com você, a situação tá bizarra demais...

Como eu vinha aprendendo, e esta seria a última lição, cada ato mais absurdo seria utilizado para manter as aparências nesta cidade; mesmo que seja para administrar a enganação por mais cinco minutos.

A verdade é que depois daquele redemoinho que cresceu e ficou gigante, a baía de Guanabara secou. E eu me encontrava preso na estação das barcas com um comprovante de embarque a ser reembolsado. Não havia sinal das embarcações e os seguranças não deixavam ninguém sair.

Um cara com dreads e uma camiseta de ativismo indígena pulou uma catraca e saiu correndo, o que dispersou uns três seguranças e incentivou mais dois malucos a pularem as catracas menos resguardadas. Quando uma garota com tatuagem de crânio bovino no ombro e cabelos laranjas pulou, os seguranças sentiram estar perdendo o controle. Vinha um deslocamento policial. As pessoas se agitaram mais e começaram a fugir. Pancadaria, trombadas, bombas, pedradas. Na primeira oportunidade em que vi segurança, saí correndo em direção ao caos.

Com alguma dificuldade consegui romper o contra-fluxo; enquanto todos buscavam amigos, parentes ou mesmo entender o que estava havendo, eu buscava perspectiva. Alguns homens tomavam água gelada numa daquelas garrafas térmicas de 5 litros com bocal de cafeteira, próximos de uma escada que se montava sob o esqueleto da perimetral. Olhavam curiosos, mas tinham horas a cumprir, já que as obras se davam no período da noite. Enquanto seus ânimos se divertiam entre palavrões sobre o futebol do dia anterior, subi a escada e, de cima, pude observar algo medonho: algumas plataformas de petróleo e navios gigantescos restavam, fluiam lentamente por uma espécie de ralo do oceano. Por lá, a sujeira da Guanabara fluiu em direção a uma fenda tectônica, o que fez exalar um cheiro muito forte; ao mesmo tempo, um calor que derreteu e selou todos os canos que mandavam suas porcarias para o mar, agora um grande deserto de areia limpa.

No dia seguinte, moleques foram vistos com pranchas de sandboard, alguns mais novos com espadas de madeira combatendo monstros invisíveis.

Após registrar o cenário desértico com a câmera, segui em direção ao centro, que mais parecia um carnaval que um dia comum: muitos estavam nas ruas pelo mesmo motivo. Contudo, o clima de alegria violenta se substituía por algo sentido durante as manifestações públicas em que a repressão seria iminente. O medo, que já fazia pessoas pularem ao serem questionadas sobre o horário ou direções a algum lugar, agora não mais podia ser dissimulado pela simpatia carioca.

Quando cheguei à casa de Lorena, quase não nos encontramos, ela terminava de arrumar sua mochila para me procurar.

- E onde está sua capa vermelha?

Apanhei um pouco, ganhei alguns beijos, aproveitei como um menino aquela profusão sincera de sentimentos, que interrompi quando percebi que ficava novamente ambígua e propensa à violência. Mostrei as fotos.

Ao mesmo tempo que não podia aceitar a realidade, pude convencê-la de não ir à Praça XV. Mesmo em seu trajeto de ônibus, deve ter havido janelas, lapsos de vista para a baía desértica, provavelmente despercebida por todos, já que naquela linha quase não há turistas. Lorena reconheceu que seus pensamentos transitaram entre o choque psicológico da demolição de uma paisagem que a acompanhara em toda sua existência, alguma coisa sobre o nervo ciático de sua mãe, opções para a janta... Como me restava o dinheiro do táxi do trabalho irrealizável, dado o trânsito colossal da Ponte, pedimos uma pizza.

O motoqueiro chegou junto com a chuva, ambos para melhorar o dia. O cheiro e o calor intenso do fenômeno metafísico e meteorológico foram amenizados pela densa água, como nossos ânimos à mesa. Sofismamos usos daquelas imagens em projetos publicitários de veículos 4x4, filmes sobre desertos e o fim do mundo, documentários televisivos sobre os ecossistemas do porvir. O vinho terminou por nos nocautear.

Acordamos muito cedo, relatando sonhos que depois esqueceríamos, em estado de semi-vigília. Pela janela, a situação continuava estranha, em nível visivelmente mais controlado. Decidimos sacar as câmeras e sair do apartamento.

O sol ameno e luminoso que acompanhava a chuva gerava um efeito de refrações entre as gotículas e as reverberações de luz nas janelas espelhadas dos prédios, mais as folhas que caíam com a forte água da pós-estiagem. Às vezes algum raio de luz arrebataria meu olhar e eu não saberia dizer onde o sol estava. Lorena, que é peixes, transbordava sua beleza quase infantil no descaso com eventuais perigos de uma caminhada, segurar sua mão era um privilégio tanto quanto uma necessidade vital.

De um sopro do céu, a chuva apertou drasticamente, sem diminuir a intensidade da luz matinal. Impressionado por este momento, descuidei de Lorena, que se colocou à frente de um ônibus, cujo motorista freou, esbravejou e foi embora. Estava tudo bem, porém fiquei nervoso com a situação, um pouco com a inconsequência de Lorena. Talvez por isso os pontos de luz que se colocavam em plano perpendicular à minha visão, a um palmo de meu rosto não me chamaram a atenção, pensei que estava apenas desorientado. Um desses pontos se alinhou a meu olho esquerdo, o que me cegou por uns segundos. Ao investigar o céu, percebi que à equação luminosa anterior somavam-se golfinhos e seus reflexos oleosos, nadavam através das gotas suspensas fazendo o barulho que um facão afiado faz na grama; faziam suas palhaçadas usuais, mas duvido que em algum parque de Miami tivessem causado tamanho deslumbre da platéia.

Alguns, mais filhotes, se perderam e caíram em pontos aleatórios da cidade. Um destes, o ônibus do motorista mal-humorado. A baía se enchia.

sábado, 19 de outubro de 2013

Luís, o retilíneo

Luís tinha o saudável hábito de apagar o poste da frente de sua casa aplicando-lhe uma "bença" (aos capoeiristas o chute frontal com as pernas fazendo 90º não requer descrição), o que obviamente o fazia popular entre os bacharéis e diplomatas, colegas de time da pelada da rua.

Seu vizinho infeliz interrompeu uma sessão de gargalhadas para pedir explicações, do que Luisão se desculpou imediata e efusivamente, moleque do interior educado e de conduta (quase) retilínea.

"Não é pra mim que você tem que pedir desculpas. É pra Elektro."

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Mogwai - Sonar Festival

Sábado às 4 da tarde abriram-se os portões do Sonar Festival em Sampa, já com uma hora de atraso e com tudo completamente desorganizado, um festival que abre sem cerveja gelada, não sei mais o que poderia dizer. Ah, sim, teve a fusão de brega pop com dubstep que quase me fez sair correndo do lugar e perder um dos shows a serem superados da temporada de 2012 no Brasil, o show dos escoceses malucos do Mogwai. A tela de led gigantesca com Pro Evolution Soccer estava bem disputada nesse meio tempo e não é capaz de amenizar o saldo negativo da organização do festival como um todo: não houve horário especial no metrô como houve no lollapalooza, nem ao menos um serviço de ônibus como o do planeta terra (ambos fatos 'justificáveis' pela menor proporção do evento) e apesar dos preços acessíveis tive a impressão de um público bastante elitista, figuras ostensivas em sua maioria se misturavam a figuras originais ou propositalmente comuns em proporção pelo menos também notável. O que se salvou do festival foram as apresentações dos artistas, mas a curadoria (em muitos casos) competente não chega a ofuscar pontos negativos também visíveis.
 Assistir a um show do Mogwai foi uma experiência da mesma amplitude que experimentei com Radiohead em 2009, mas de tamanha maneira diferente que conseguiu estabelecer ainda mais parâmetros de qualidade para um show. Primeiramente, foi um show extremamente pequeno, dentro de um teatro. Cheguei ao local 40 minutos antes do começo do show, desencanando do show que pelo que vi não foi lá essas coisas do Cee Lo Green (diferente do que eu imaginava) e me surpreendendo com a facilidade com que fui capaz de colocar meus cotovelos no palco e ver com detalhes o formato dos acordes que cada músico fazia em seus instrumentos. Em segundo lugar e com igual importância, os caras tocam alto! Ambas do último disco, as duas primeiras músicas do show foram a pancada inicial necessária para tirar a pessoa da inércia de sua condição anterior e adentrar uma experiência sonora diferente, algo que já ouvi sobre o show do Mogwai e hoje posso confirmar. Rano Pano, pra mim a melhor do Hardcore Will Never Die But You Will gerou violentas expressões de muitas cabeças bangueantes ao redor da platéia, incapazes de ignorar influência já percebida.

Stop Coming To My House é uma música que começa pequena e ganha amplitude a cada adorno ou troca de efeito ou aumento de volume, chegando ao fim com guitarras bem mais estridentes, volumosas e altas, o que gerou até um fato engraçado no início da música seguinte, How To Be A Werewolf, na qual o guitarrista careca maluco (o único claramente visível na foto) se esquece de acionar a pedaleira correta e entra em sua parte com a distorção da música anterior, jogando uma lata de tinta amarela/laranja onde deveria ter passado um azulzinho de leve e dando risada por uns bons 10 segundos...

O ápice começou em 2 Rights Make 1 Wrong, aquela que reúne características que parecem oriundas de tudo o que veio antes misturado, amplificado e, como diria meu amigo maluco Silvio Santos, rodando! Logo após esta experiência mais observadora da totalidade, Batcat é como Pete Townshend terminaria seu show: após circular os braços esticados que orbitam no sol de seus captadores ligados a amplificadores também Marshall, moer cada instrumento com a violência pertinente, guitarras e baixo altos o suficiente para que sejam sentidos no osso externo.

Saí do show meio sem saber o que eu ia fazer depois, vi essa cara de confusão em outros rostos também.

Tive de recorrer a uma setlist da internet para me recordar da ordem e das exatas 10 faixas que contei no dia, clássico depois de clássico, mas vale o registro minucioso de uma experiência maior que estes detalhes.

White Noise
Rano Pano
I'm Jim Morrison, I'm Dead
Stop Coming To My House
How To Be A Werewolf
Mexican Grandprix
Hunted By A Freak
Mogwai Fear Satan
2 Rights Make One Wrong
Batcat
[Mogwai - São Paulo, 12 de maio de 2012].